Lembranças do Mundo Antigo


Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo.
Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!



Autor: Carlos Drummond de Andrade
do Livro A Cor de Cada Um

A Velha Contrabandista

Nunca escrevi em meu blog. A única postagem que ele possui foi escrita pelo meu amigo Peterson, porém, hoje eu tenho que escrever. É caso de vida ou morte. Não a minha vida, claro, mas é que o texto que vou escrever foi extraído de um livro que provavelmente não será mais meu, então, escrevê-lo aqui é uma forma de não perdê-lo.
Esse conto é de autoria de Stanislaw Ponte Preta e eu o extraí de um livro chamado Eu Gosto de Comunição (Companhia Editora Nacional).




Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.



Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal perguntou asim a ela:



- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?



A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que adquirira no odontólogo, e respondeu:



- É areia!



Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.



Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com aria e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.



Diz que foi aí que o fiscal se "chateou":



- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.



- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:



- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?



- O senhor promete que não "espaia"? - quis saber a velhinha.



- Juro - respondeu o fiscal.



- É lambreta.


Stanislaw Ponte Preta. Primo Altamirando e elas.
4. ed. Rio de Janeiro, Sabiá.

"Vossa Esteleza" está online

“Vossa Esteleza” nasceu do tratamento carinhoso e vassalo que eu, Peterson Florindo, autor de O Cão Ocidental, dedico a Estela quando o meu humor está melhor do que de costume. Além disso, é um tratamento que eleva o astral da Estela, que também gosta de ser chamada de Gayle (pronuncie /gaiou/, e não /gueiou/).

Sugeri a Vossa Esteleza que criasse um blog com esse nome que dá um ar blasé ao seu blog. Em relação ao nome, eu sugeri VossÆsteleza, mas ela não gostou muito por causa da poluição visual. Sugeri a ela também que escreva sobre bandas e hits dos anos 80, narizes que ela considera bonitos, arquitetura e tudo mais que der vontade a ela de publicar.

Vamos apóia-la! Apoiemos Vossa Esteleza!
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Escrito por P. Florindo.